Rolls-Royce e o iatismo: uma herança partilhada

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A Rolls-Royce Motor Cars mantém uma relação duradoura com o mundo do iatismo, baseada num interesse comum pelo uso de materiais nobres e pela mestria artesanal na busca do desempenho, bem como numa clientela partilhada. Historicamente e na atualidade, os iates de regata influenciaram elementos-chave da linguagem de design da Rolls-Royce e serviram de inspiração direta para modelos automóveis, incluindo o lendário Phantom Drophead Coupé e os exclusivos projetos Boat Tail Coachbuild.

Uma herança partilhada
As ligações entre a marca e o mundo marítimo são profundas, pessoais e anteriores à própria fundação da Rolls-Royce. A família de Charles Rolls era proprietária do elegante e imponente Santa Maria — um iate a vapor com aparelhamento de escuna, dois mastros e propulsão auxiliar a vapor, típico da sociedade náutica abastada do final da era vitoriana e início da era eduardiana.

Registos e diários de bordo do final do século XIX e início do século XX mostram o Santa Maria a realizar frequentes viagens familiares desde Shoreham, na costa sul de Inglaterra, até ao Mediterrâneo, com escalas em Cannes, Nápoles, Malta e Mónaco — destinos que continuam a ser preferidos e/ou portos base de muitos clientes da Rolls-Royce que são também proprietários de iates.

Após concluir os seus estudos em Cambridge em 1898, seis anos antes do seu histórico primeiro encontro com Henry Royce, o jovem Rolls desempenhou brevemente funções como terceiro engenheiro a bordo. Este foi o seu primeiro papel na engenharia, antes de seguir a sua verdadeira vocação como pioneiro do automóvel e da aviação. O seu contemporâneo e entusiasta do automobilismo, Lord Montagu de Beaulieu, tal como muitos dos primeiros clientes aristocráticos da marca, era também um ativo praticante de iatismo e competidor em corridas de lanchas.

Fazendo ondas
Nas décadas seguintes, a Rolls-Royce desenvolveu fortes ligações com o mundo marítimo, à semelhança do que fez na aviação, como fabricante de motores de classe mundial. No início dos anos 1960, os elegantes iates Riva Caravelle eram equipados com motores Rolls-Royce, combinando o artesanato italiano com a excelência da engenharia britânica. (Entre 1989 e 1997, a Vickers foi proprietária tanto da Rolls-Royce Motor Cars como da Riva.) Em 1965, a Rolls-Royce desenvolveu o “Rolls-Rio”, um motor V8 adaptado para uso marítimo, em colaboração com outro importante construtor italiano, a Avionautica Rio.

Entre 1954 e 1997, o iate real Britannia foi a embarcação oficial da família real britânica, tendo sido descrito pela falecida Rainha Isabel II como “o único lugar onde posso realmente relaxar”. Atualmente atracado permanentemente no Ocean Terminal, em Leith (Edimburgo), como atração turística de cinco estrelas, durante o seu serviço o Britannia transportava a bordo um Rolls-Royce Phantom V Park Ward para uso da Rainha quando o iate atracava em portos estrangeiros. O automóvel era içado para dentro e fora do convés com uma pequena grua e guardado numa garagem no convés intermédio; para caber, era necessário remover os para-choques, que eram depois recolocados no destino.

Em terra e no mar
A ligação histórica mais forte entre a Rolls-Royce e o iatismo reside na sua clientela comum. No início do século XX, as regatas de iates eram uma atividade altamente prestigiada e exclusiva, atraindo muitos dos mesmos industriais, financeiros, aristocratas e empresários britânicos e norte-americanos que também eram proprietários de automóveis Rolls-Royce.

Tal como hoje, o auge deste desporto era a America’s Cup. Para muitos, o seu ponto mais alto ocorreu na década de 1930, quando foi disputada pelos incomparáveis iates da classe J. Com proporções elegantes, longos balanços, linhas fluídas e planos vélicos imponentes, estas embarcações clássicas de alto desempenho combinavam beleza com velocidade impressionante, sendo ainda hoje consideradas verdadeiras obras de arte flutuantes.

Um desses iates, o Endeavour, pertenceu a Sir Thomas “Tommy” Sopwith. Também ele pioneiro da aviação, cujos projetos incluíram algumas das aeronaves mais influentes da Primeira Guerra Mundial, Sopwith geriu um concessionário Rolls-Royce no início da sua carreira e foi proprietário de uma vasta coleção de automóveis da marca ao longo da vida. De forma semelhante, o magnata dos media Sir William Berry, Visconde Camrose, possuía tanto um iate da classe J, chamado Cambrai, como um Rolls-Royce Phantom II.

A linguagem da velocidade
No início do século XX, os automóveis Rolls-Royce eram frequentemente carroçados com estilos diretamente inspirados em iates, incorporando materiais como o mogno e métodos de construção provenientes da tradicional construção naval.
Na linguagem de design contemporânea da marca, a linha inferior da carroçaria — conhecida como “waft line” — inspira-se diretamente no design de iates. Elemento distintivo dos modelos Phantom, Ghost, Cullinan e Spectre, cria uma sensação de movimento fluido ao refletir a estrada que passa por baixo, tal como o casco de um iate reflete a água ao avançar.
Lançado em 2007, o Phantom Drophead Coupé foi concebido para evocar um iate clássico em movimento, com uma elevação dinâmica da linha lateral sobre as rodas traseiras e linhas elegantes que se projetam para a frente. A reforçar o tema náutico, a cobertura traseira, o revestimento da bagageira e a zona dos passageiros traseiros foram acabados em teca branqueada.
Uma década mais tarde, o primeiro automóvel Coachbuild da era moderna, o “Sweptail”, foi inspirado em iates clássicos da coleção privada do cliente que o encomendou. Seguiu-se, em 2022, o conjunto de três modelos Boat Tail Coachbuild, que, à semelhança dos seus predecessores do século XX, apresentam uma secção traseira inspirada em iates clássicos, com uso extensivo de madeira e uma forma escultórica semelhante a um casco.
Mais recentemente, o Spectre — o super coupé elétrico da marca — dá continuidade a esta herança. O seu design foi inspirado nos iates de regata da classe J, com uma proa vertical que conduz o olhar até à traseira de perfil fastback elegante.

Em território comum
A atual sede da Rolls-Royce em Goodwood situa-se perto do porto de Chichester, o maior porto de recreio da Europa. Classificado como Área de Excecional Beleza Natural, as suas águas de maré fluem através de uma ligação direta na entrada do porto para o Solent Oriental, e daí para o próprio Solent — um dos mais importantes centros mundiais de atividade marítima e de iatismo, e lar de uma das comunidades de vela mais ativas do mundo.

Cowes, no coração do Solent, é o berço das regatas internacionais organizadas e da cultura da vela internacional; é também o local onde se realiza a Cowes Week, uma das regatas mais antigas do mundo ainda em atividade. O troféu internacional de vela mais antigo do mundo, a America’s Cup, teve origem numa corrida iniciada no Solent. Muitas outras competições de vela offshore também começam ou têm raízes culturais nesta região, incluindo a Fastnet Race e a Round the Island Race, ambas com partida e chegada ao largo de Cowes. Além disso, a competição de vela à volta do mundo, hoje conhecida como The Ocean Race, teve originalmente início e fim em Portsmouth.

A decisão de estabelecer a moderna sede da Rolls-Royce Motor Cars em Goodwood foi, em parte, influenciada pela proximidade a um dos maiores centros mundiais de competências na construção naval. Em toda a região do Solent, gerações de conhecimento especializado mantêm-se vivas através de construtores navais de excelência, arquitetos navais e mestres carpinteiros navais.

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