À conversa com Pedro Fardilha Nunes

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Somos um País de marinheiros…

Falar de Pedro Fardilha Nunes é quase como falar da presença da Yamaha Marine em Portugal pois, há mais de 33 anos que está ligado à marca japonesa.
Conheço o Pedro Nunes há cerca de 40 anos e sempre foi uma pessoa apaixonada pela Náutica e um profissional competitivo que procura colocar, a marca que representa, na liderança do mercado através de estratégias bem concebidas e fruto de muito trabalho desenvolvido em equipa.
Os Escuteiros Marítimos moldaram-lhe a vida através dos valores que defendem e da forma como se organizam.

Texto: Vasco de Melo Gonçalves Fotografia: ©Viver com Gosto

Anuário Náutico (AN)Penso que a tua primeira ligação ao mar começou com os escuteiros marítimos. Estou correto?
Pedro Nunes (PN) – Sim. Acho que antes disso ainda fiz natação, no Liceu Jaime Moniz, no Funchal. Mas sim, é verdade. Eu, como penso que sabes, nasci em Angola e, portanto, depois da Revolução, na altura do 25 de Abril, rumei à Madeira com a minha família. E, efetivamente, aos 10 anos entrei nos Escuteiros Marítimos do Funchal, do Corpo Nacional de Escutas. E, obviamente, como escuteiros tínhamos todas as atividades de campo, acampamentos e todas as coisas giras dos escuteiros, mas também tínhamos atividades náuticas — num agrupamento marítimo, o principal meio de atividade é a embarcação.
E sim, nos escuteiros fazíamos vela. Tínhamos Optimists; foi assim que aprendi a velejar. Depois, como qualquer pessoa que entra na vela, não tanto no espírito regateiro, mas no espírito de usufruir do mar — de preferência em equipa. Na altura ainda não havia embarcações de maior tripulação, como vieram a existir mais tarde, mas passei pelos Raqueros, pelos Vauriens, pelo Snipe… E não era só vela: também tínhamos canoagem. Lembro-me de o Nelo, que estaria a começar, ir à Madeira dar cursos de auto-construção, em que participei, e fizemos os “Esquimós”.
Portanto, havia os Esquimós, havia os R para fazer as esquimotagens, e fazíamos isso tudo. A canoagem é fantástica, principalmente numa ilha como a Madeira, que permite vários percursos. Depois também estive envolvido no SANAS, o Corpo de Voluntários, que começa em Caxias mas que tem uma base muito forte na Madeira e que nasceu a partir do agrupamento dos Escuteiros Marítimos. A minha vida no mar não vem de ser especialista, mas sim porque passei grande parte da infância e adolescência dentro de água — isso é inegável.

AN – Nessa altura, qual era o teu grande sonho? Se é que tinhas algum.
PN – Sim… não me lembro com exatidão, mas presumo que, com a vela e a canoagem, quando era miúdo, teria os sonhos que todas as crianças têm. Lembro-me — não sei situar exatamente no tempo — daquele sonho típico de dar a volta ao mundo, num barco, num catamarã. Depois, já adolescente, perto da maioridade, tínhamos muitas atividades internacionais e também nacionais, e eu ia muitas vezes para Aveiro, onde ficávamos alojados na Reserva das Dunas de São Jacinto. Aí andávamos de bateira à vela, com o patilhão, com a “tosta”, como eles chamavam. Às vezes aquilo atolava no lodo… E eu gostava tanto que, na altura, sonhava ficar por ali. Gostava muito daquela Reserva Natural.
Mas também nas atividades internacionais fizemos vários acampamentos. Fiz o Interrail, etc. E houve um acampamento, o National Water Camp, na Holanda — que é um paraíso para quem gosta de água. Lembro-me de um acampamento em Roermond, no sul da Holanda, perto da Bélgica, onde ficámos em barcos que tinham de tudo, até transportavam carros lá dentro, verdadeiras casas-barco. Sempre adorei aquilo e sonhava, na altura: “Porque não viver na Holanda?”. Claro que isso era no verão… Hoje, que conheço a Holanda no inverno por motivos profissionais, já não sei se escolheria. Mas é um país fabuloso, sem dúvida.

AN – Como é que os escuteiros moldaram a tua vida?
PN – Os escuteiros foram super importantes. Depois, quando vim para o continente — nós na Madeira dizemos muito “o continente” —, quando vim para Lisboa estudar, mantive-me ligado aos escuteiros. Passei a ser chefe nos Escuteiros Marítimos de Nova Oeiras e depois, com um grupo de amigos, fundámos o agrupamento 929, os Escuteiros Marítimos de Belém, que ainda hoje existe. Isto foi por volta de 1986/87. Os escuteiros tiveram um peso enorme na minha vida.
Aliás, eu creio que te conheci, ou te vi pela primeira vez, na inauguração das instalações em Belém… com o Mons. Canas a ler uma passagem da Bíblia a dizer que as atividades náuticas não iam trazer “tormento”… e nós ali a pensar: “Meu Deus, o que é que os pais vão pensar?”. Também te conheci no Congresso dos Desportos Náuticos, no Padrão dos Descobrimentos, em 1986 — faz 40 anos para o ano.
Mas isto para dizer que sim, que os escuteiros são conhecidos por serem uma escola de formação integral para a vida — e eu acho que são mesmo. Hoje, tanto na vida profissional como familiar, vou buscar muita coisa ao que aprendi nos escuteiros. Uma delas é o sentido de “desenrascanço”. Aquela célebre frase “a palavra impossível leva um pontapé no im e fica possível”. Esse sentido de não desistir, de ter confiança e de dar confiança — isso aprende-se nos escuteiros. E, obviamente, o trabalho em equipa, a decisão em conselhos, em assembleias — essa escola de democracia.
Também tive a sorte de nas patrulhas começar como sub-guia, depois guia, e isso deu-me papéis de liderança. Hoje sinto que essa formação está na base do modo como lidero equipas — profissionais ou até a minha família. Sou pai de quatro filhos, o mínimo para uma patrulha! E profissionalmente lidero uma equipa de cinco pessoas. Devo muito aos escuteiros.

AN – Qual foi o momento em que pensaste que podias ter uma vida profissional ligada à náutica?
PN – Lembro-me bem. Na altura os estudos na universidade não estavam a correr como eu queria… patinei um bocado. Os escuteiros talvez tenham tido alguma responsabilidade nisso porque eu dedicava-lhes muito tempo — mas não me arrependo. E concorri a um anúncio de jornal, nem muito específico no que dizia. Não sei se dizia “barcos”… eu até brincava: “Vou ter de ir lavar barcos!”. Não era isso — embora já tenha lavado muitos barcos na vida profissional, e com gosto.
Talvez até aí nunca tivesse a noção de que o meu futuro podia passar pela náutica, até porque estudava Comunicação Social e talvez viesse a trabalhar em jornalismo ou media. Mas para mim foi relativamente fácil entrar, porque já estava “no meio”, já sabia o que era a proa e a popa. Aproveitei a oportunidade. Estive algum tempo em trabalhos temporários de jornalismo, mas o meu primeiro trabalho fixo, com contrato, foi na Motomar, o importador da Yamaha.
Estou há 33 anos de Yamaha.

AN – E foi uma boa experiência?
PN – Sim. A Motomar era uma empresa privada, portuguesa, à moda antiga, com algumas limitações da época — incluindo a língua, o inglês (os sócios não dominavam o inglês). Portugal tinha entrado há pouco na Comunidade Europeia, e a Motomar passava a ter mais ligação à Europa do que ao Japão. Foi uma ótima escola. Sendo distribuidora, mas também vendendo ao público em Lisboa e Porto, deu-me experiência de contacto direto com o cliente final, mas sobretudo com a rede de agentes, onde o mais importante é criar confiança.
É um tipo de empresa diferente de uma multinacional, onde há fábrica, vendas, marketing… Um importador importa e vende. Isso deu-me bases para tudo o que fiz depois na minha vida, sempre ligado à Yamaha.

AN – Alguma vez te passou pela cabeça seres empresário, no setor?
PN – Sim. Houve uma fase em que os sócios da Motomar já tinham idade e queriam vender o negócio. Eu e um colega (que infelizmente já não está entre nós) ainda ponderámos comprar uma pequena quota — aí pensei: “porque não trabalhar por conta própria?”. Mas a náutica exige algum capital. E eu não venho de família rica; sempre fomos trabalhadores por conta de outrem. E um assalariado, por mais que trabalhe, raramente tem capacidade de investimento suficiente. Talvez isso me tenha afastado.
E, sinceramente, nunca fui pessoa de dar importância excessiva ao dinheiro. Claro que é necessário — todos precisamos — mas acredito mesmo que o dinheiro não traz felicidade. E, portanto, nunca tive aquela obsessão de “quero ser rico, tenho de ter o meu negócio”.

AN – Com estes anos todos, como tens visto a evolução da náutica?
PN – Houve um salto enorme. Os barcos de hoje não têm nada a ver com os de há décadas. Mas a náutica não é uma coisa só: tem muitos segmentos. Há quem use o barco para atravessar uma barragem, e aí tudo está igual — madeira, poço aberto. Mas houve muita evolução.
Quando cheguei, nos anos 90, havia expansão: muitos créditos, Portugal a evoluir, e apareceu o conceito do “barco-carro” — os Bayliner, com volante, para-brisas… um prolongamento do carro. Isso trouxe muita gente para a náutica, o que é bom, mas muitas pessoas sem grande conhecimento técnico.
Mais tarde cresceu a procura pelos catamarãs. Nada contra — hoje há excelentes catamarãs — mas em performance não são iguais a monocascos. Trouxeram ainda mais pessoas à água, gente que se sente mais segura, que quer estar no barco como se estivesse em casa.
A motorização também evoluiu: os interiores deram lugar aos fora de borda, libertando espaço a bordo. As proas ficaram mais largas, as laterais passaram a abrir, há mais salas, quartos, zonas de convivência. A náutica evoluiu para proporcionar maior usufruto a bordo.
E também temos os foils, ainda numa fase inicial mas com impacto no conforto e no consumo.
A náutica democratizou-se — mais utilizadores, mais opções, mais conforto.

AN – Agora uma questão talvez mais polémica. É compatível esta evolução com a sustentabilidade ambiental?
PN – Sim, é uma questão pertinente. Hoje fala-se mais, há mais vozes e mais debate. Durante anos dizia-se que a eletrificação era o único caminho. Hoje discute-se que há outros caminhos de descarbonização. Também se começa a questionar o impacto das baterias, a sua reciclagem.
A náutica seguirá o que acontece no resto da sociedade, mas tem a particularidade de operar num meio sensível: a água. Tudo o que chove vai parar ao mar. Portanto, sim, tem de se proteger, mas sem fundamentalismos.
Recentemente experimentei, pela primeira vez, um fora de borda elétrico. E o que digo sempre é: quem valoriza silêncio, arranque fácil, comodidade, vai gostar. Mas acreditar que o elétrico compensa pelo consumo… não é bem assim, porque os motores de combustão pequenos gastam pouco. E os motores de combustão modernos cumprem normas muito rigorosas.
A legislação muda, às vezes mal — influenciada por lobbies — mas espero que seja inteligente e deixe espaço à escolha do consumidor. E claro, os conflitos globais, a competição por recursos raros, tudo isso afeta. Mas eu sou otimista: há mais liberdade de opinião e mais informação. O problema é filtrá-la — hoje temos tanta informação que deixamos de aprofundar.
Antes líamos revistas ou íamos a feiras. Hoje, além disso, temos redes sociais — demasiado ruído. E as tendências mudam todas as semanas.

AN – Como é trabalhar numa multinacional como a Yamaha Marine?
PN – A Yamaha é uma verdadeira multinacional. Trabalho na Yamaha Motor Europe, sucursal Portugal; a sede europeia é em Amesterdão e a casa-mãe no Japão. Um japonês ensinou-me algo que nunca esqueci: devemos olhar para o mercado como um pássaro — de cima vê-se tudo.
Essa é a vantagem de uma multinacional: há cadeia completa, da fábrica à loja. As lojas são concessionários independentes, mas queremos que transmitam a mesma mensagem da marca.
As multinacionais estão muito reguladas por critérios de compliance — às vezes até demais — mas é bom para segurança e boas práticas.
Gosto muito de trabalhar na Yamaha porque, como na Motomar e como nos escuteiros, há sempre coisas para fazer. Apesar de ser global, a Yamaha mantém o princípio japonês do “Think global, act local”. Ou seja, dão autonomia para adaptar produto, marketing, comunicação ao mercado local. Sentimo-nos parte ativa das decisões.
Conheces a palavra Kando, que é a missão da Yamaha: proporcionar ao cliente uma experiência que exceda as expectativas — seja quando usa o produto, seja quando recebe um serviço.

AN – Última questão. Portugal é um país de marinheiros?
PN – Acho que sim. Nem que seja pela costa fantástica e pelas águas interiores que nem todos conhecem. Claro que às vezes se pergunta: “Se somos um país de marinheiros, porque é que não há mais barcos?”. Mas quem conhece sabe: temos uma costa atlântica dura, agreste. Não temos as condições dos países bálticos ou do Mediterrâneo.
Outro conceito importante: ter barco não é sinónimo de ser rico. Há muita gente — classe média ou baixa — que tem barco. Agora, barcos maiores e com motores potentes são caros, claro. Mas também as casas são caríssimas, e comparativamente os barcos até ficaram mais acessíveis.
Há cada vez mais portugueses com barco, em vários segmentos. E tal como nos carros e nas casas, nem toda a gente quer ser proprietária: cresce o aluguer, o acesso partilhado. A Yamaha já tem o Boat Club, a Skipperi, e a plataforma MySea — maneiras de democratizar a náutica.
O grande desafio é facilitar o acesso à água. Temos obstáculos — correntes, mar bravo, falta de marinas — mas avançamos.
E sim, acho que Portugal é um país de marinheiros. Não só pela história, mas pela localização e, sobretudo, pela vontade. Portugal é um país de sonhos — e de marinheiros.

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