Duarte Aveiro — A pintura como fonte de energia

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Autodidata, observador atento e apaixonado pelo mar, Duarte Aveiro, um homem ligado à restauração, encontrou na pintura uma forma de expressão e assume como um talento que nasceu consigo. Entre marinas, paisagens, arquitectura, flores e figuras religiosas, o artista madeirense construiu uma linguagem própria, deixando também espaço para que cada observador complete a obra com o seu próprio olhar.
Foi no restaurante il Vivaldi, no Funchal, que tivemos a oportunidade de observar a sua pintura e tentar descobrir o que está por detrás de um Chefe de Sala profissional e exigente.

Duarte Aveiro, nascido em 1963, acredita que não se aprende a ser pintor. “Acredito que nasci pintor, porque isso não é algo que se torna”, afirma. Para o artista madeirense, a pintura, tal como o futebol, é antes de tudo uma questão de talento e de vocação. O percurso e a técnica podem ser desenvolvidos, mas existe uma predisposição inicial que não se ensina.

A comparação com o futebol surge naturalmente na sua conversa. Duarte Aveiro foi também jogador profissional, experiência que lhe permitiu perceber que determinadas capacidades fazem parte da natureza de cada pessoa. “Ninguém nasce dizendo: vou ensinar-te a ser um Cristiano Ronaldo”, observa. Para ele, o mesmo acontece com a pintura: há um dom inicial que, posteriormente, se aperfeiçoa através da experiência, da observação e da procura de uma linguagem própria.

Aprender a olhar
Autodidata, Duarte Aveiro começou a desenvolver a sua relação com a pintura desde muito cedo. Recorda que sempre gostou de desenhar e que percebeu ainda criança que tinha facilidade para o desenho. O seu processo de aprendizagem foi essencialmente feito através da observação.
Visitar exposições, conhecer o trabalho de outros artistas e perceber aquilo de que gostava — ou não gostava — tornou-se uma forma de aprendizagem. “Comecei a transferir para a tela o que eu gostava e o que não gostava dos outros artistas“, explica.
Com o tempo, porém, essa aprendizagem transformou-se numa procura pessoal. Experimentou técnicas, materiais e combinações diferentes, incluindo técnicas mistas e a utilização de gesso e materiais reciclados. O objectivo deixou de ser simplesmente aprender com os outros para passar a ser encontrar uma identidade própria.
“Queria fazer algo diferente, não copiar ninguém”, resume.
É precisamente nessa liberdade de experimentar que encontra uma das características mais fascinantes da pintura. Uma técnica pode ser conhecida e ter uma longa tradição, mas as possibilidades de a combinar com outros materiais e processos parecem-lhe praticamente ilimitadas.

Uma fuga à rotina
Para Duarte Aveiro, pintar é também uma forma de recuperar energias. Não necessariamente uma fuga da realidade, mas uma pausa em relação à rotina diária e uma maneira de reencontrar equilíbrio.
“Para mim, a pintura, a qualquer momento da minha vida, foi um escape da rotina”, confessa. Pintar permite-lhe recarregar energias para aquilo que considera igualmente importante: o trabalho, os amigos e a relação com as pessoas.
A relação com a pintura é particularmente intensa. Duarte Aveiro admite ter dificuldade em concentrar-se na leitura — gostaria de conseguir pegar num livro e lê-lo de uma vez, mas perde rapidamente o fio à leitura. Com a pintura, a situação é completamente diferente.
“Se me colocar três ou quatro telas à minha frente num dia, vou devorá-las”, diz, revelando uma relação quase física com o acto de criar.
A conclusão de uma obra proporciona-lhe uma satisfação especial. Não apenas por ter produzido algo concreto, mas sobretudo pela possibilidade de esse trabalho despertar emoções em quem o observa. É essa reacção que alimenta o desejo de continuar.

O quadro termina quando o artista decide
Uma das características mais interessantes da sua abordagem está na importância que atribui ao momento de terminar uma pintura. Para Duarte Aveiro, saber quando parar é uma parte essencial do processo criativo.
O artista parte muitas vezes de imagens que encontra no quotidiano. Uma porta, um edifício, uma pessoa, um recanto ou uma paisagem podem ficar registados na sua memória e transformar-se mais tarde numa pintura.
Também os retratos ocupam um lugar no seu trabalho, mas não procura necessariamente uma reprodução literal. Prefere interpretar as figuras à sua maneira e, sobretudo, deixar espaço para a imaginação de quem observa.
É aqui que surge uma das suas ideias mais fortes sobre a pintura: uma obra não termina necessariamente quando o artista pousa o pincel. Termina, em certa medida, quando o observador lhe atribui o seu próprio significado.
Duarte Aveiro já fez experiências nesse sentido, mostrando uma mesma obra a diferentes pessoas. As interpretações foram distintas e, por vezes, revelaram elementos que o próprio artista não tinha conscientemente identificado.
Recorda, por exemplo, o caso de uma pintura de um Cristo em que um amigo descobriu uma segunda figura escondida na barba da personagem principal. Inicialmente, Duarte Aveiro não a tinha visto. Quando lhe foi indicada, porém, passou a reconhecê-la.
“É impressionante”, admite.
Para o artista, este fenómeno demonstra como cada pessoa vê e interpreta uma obra de forma diferente. Somos semelhantes, mas cada olhar é único.

O mar como inspiração
Entre os seus temas preferidos estão as marinas. Não é difícil perceber porquê. Duarte Aveiro passa muitas horas junto ao mar e essa presença constante acaba naturalmente por influenciar o seu trabalho.
Mas o universo artístico do pintor madeirense não se limita ao oceano. Edifícios, monumentos, capelas, igrejas, catedrais, cidades e paisagens despertam igualmente a sua atenção.
Há, aliás, um prazer especial em mudar de cenário. Sair do mar e subir à serra, trocar a linha do horizonte pela arquitectura ou descobrir novas paisagens são experiências que alimentam a sua criatividade.
As flores constituem outro território de eleição, embora aqui a técnica escolhida seja frequentemente diferente. Duarte Aveiro prefere trabalhar as flores em aguarela, pela delicadeza que associa à técnica.
Para ele, a transparência e suavidade da aguarela adequam-se particularmente bem à fragilidade das flores e das plantas. É uma escolha de sensibilidade, mais do que uma regra artística.

Il Vivaldi, uma galeria com alma
O restaurante Il Vivaldi, no Funchal, ocupa um lugar especial no percurso de Duarte Aveiro. Mais do que um local onde expõe os seus trabalhos, tornou-se uma espécie de extensão do seu próprio universo artístico.
O espaço é descrito pelo artista como “uma das maiores galerias” que conhece. A relação com Pedro, proprietário do restaurante, foi fundamental para essa transformação.
“Senhor Aveiro, a casa é sua, coloque o que quiser”, terá sido a frase que lhe deu liberdade para intervir no espaço.
Duarte Aveiro passou, assim, a decorar o restaurante com o mesmo cuidado com que decoraria a sua própria casa. Escolhe, dispõe e altera as obras, observa a reacção dos clientes e procura perceber de que forma as pessoas interagem com o ambiente.
Para o artista, um restaurante não deve ser apenas um espaço para comer. Deve ter personalidade, identidade e, sobretudo, alma.
“Faço tudo com muito carinho, decoro este espaço como se fosse a minha casa”, afirma.
É talvez essa relação emocional que explica a forma como encara o Il Vivaldi: não simplesmente como uma sala onde estão pendurados quadros, mas como um espaço vivo, onde arte, arquitectura, gastronomia e pessoas se encontram.

Ser quem se é
Quando questionado sobre o sonho que comanda a sua vida, Duarte Aveiro surpreende pela simplicidade da resposta.
Não fala de fama, de riqueza ou de reconhecimento. O seu sonho é continuar a ser quem é, manter-se feliz, preservar os amigos e ser, também ele, um bom amigo.
“É simples assim.”
Valoriza a possibilidade de viver cada dia de cabeça erguida e considera que a verdadeira riqueza não está necessariamente nos bens materiais. Há quem tenha carros luxuosos, casas grandes ou muito dinheiro e, ainda assim, viva sem felicidade.
A sua própria estrada é outra.
Depois de ter enfrentado problemas de saúde, olha para a vida com particular sentido de gratidão. A saúde, diz, é o mais importante.
E talvez seja precisamente nessa simplicidade que melhor se compreenda a sua pintura. Duarte Aveiro pinta aquilo que vê, mas sobretudo aquilo que sente. O mar, a arquitectura, as flores, os rostos e as paisagens são pontos de partida para uma viagem pessoal que não termina na tela.
Porque, para ele, a pintura é simultaneamente expressão, descoberta e energia.

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