Os velejadores da Ocean Race ajudam a detetar ameaças que espreitam nas águas europeias

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As amostras de água do mar recolhidas pelos velejadores durante a The Ocean Race Europe 2025 poderão revelar novos conhecimentos sobre ameaças oceânicas, desde florações de algas nocivas até proliferações de medusas. A iniciativa surge num momento particularmente crítico, numa altura em que diversas zonas costeiras das Caraíbas e de outras regiões continuam a ser invadidas por grandes quantidades de sargaço, evidenciando a necessidade urgente de compreender melhor a biodiversidade marinha e a propagação de espécies invasoras.

Os dados recolhidos durante a regata poderão revelar-se fundamentais para avaliar de que forma estes fenómenos estão a ser influenciados pelas alterações climáticas e pela atividade humana, ajudando igualmente a identificar riscos emergentes nos mares europeus. Os resultados preliminares foram divulgados hoje para assinalar o Dia Mundial dos Oceanos, uma iniciativa global que pretende sensibilizar para o papel essencial dos oceanos na sustentação da vida na Terra.

© Julien Champolion / The Ocean Race

A equipa Paprec Arkéa recolheu ADN ambiental (eDNA) durante a travessia de mais de 2.000 milhas náuticas pelo Mediterrâneo, entre Cartagena, em Espanha, e a Baía de Boka, no Montenegro, durante a competição realizada no verão passado. Estas amostras contêm material genético deixado pelos organismos na água através de células da pele, muco e resíduos biológicos. Através da análise destes vestígios, os cientistas da organização Citizens of the Sea conseguiram identificar as espécies presentes sem necessidade de as observar ou capturar.

A análise das 24 amostras permitiu identificar mais de 8,5 milhões de sequências de ADN, bem como a presença de 2.365 tipos de bactérias e 785 grupos de plantas e animais.

Entre as descobertas mais relevantes destaca-se a deteção da medusa Pelagia noctiluca, conhecida como medusa-violeta ou Mauve Stinger, uma espécie cuja presença tem vindo a aumentar devido às alterações climáticas e à sobrepesca. Como a maioria dos programas de monitorização de medusas ocorre junto à costa, as amostras recolhidas em mar aberto durante a regata poderão contribuir para prever a sua futura distribuição e minimizar impactos sobre o turismo e a pesca.

Foram também identificadas espécies associadas a florações de algas nocivas (HABs), como os géneros Alexandrium e Dinophysis. Embora a sua presença não indique a ocorrência de florações ativas, os resultados demonstram o potencial do eDNA como ferramenta de alerta precoce. Estas florações podem produzir toxinas perigosas e causar impactos significativos nos ecossistemas marinhos, nas economias costeiras — incluindo o setor das pescas — e na saúde humana.

Os investigadores detetaram ainda vestígios da alga invasora conhecida como Red Sea plume seaweed, originária do Mar Vermelho, em zonas afastadas da costa, apesar de se tratar de uma espécie tipicamente costeira. Esta descoberta sugere que a sua dispersão poderá ser mais extensa do que se pensava, representando uma ameaça para as florestas de algas do Mediterrâneo ao bloquear a luz solar e reduzir a biodiversidade.

Outras espécies não indígenas frequentemente associadas ao transporte marítimo e às infraestruturas costeiras, incluindo cracas, vermes construtores de recifes e tunicados coloniais, também foram identificadas. Estes resultados reforçam o papel da atividade marítima na propagação de espécies invasoras e demonstram como o eDNA pode ajudar a monitorizar estes movimentos em vastas áreas oceânicas.

Stefan Raimund, coordenador do Programa Científico da The Ocean Race, afirma que “as alterações climáticas e a atividade humana estão a impulsionar novas ameaças marinhas, mas os cientistas ainda conhecem surpreendentemente pouco sobre muitas espécies e os seus padrões de distribuição”. Segundo o responsável, os barcos à vela constituem verdadeiras “embarcações de oportunidade” quando equipados com tecnologia adequada, permitindo recolher informação sobre biodiversidade de forma mais rápida e económica do que muitos métodos científicos tradicionais.

A organização pretende equipar um número crescente de embarcações de competição para recolher eDNA em tempo real, contribuindo para uma melhor compreensão da distribuição das espécies nos oceanos e para a proteção da saúde dos ecossistemas marinhos.

A The Ocean Race é pioneira na recolha de ADN ambiental a bordo de embarcações à vela. A iniciativa teve início durante uma etapa da edição 2022-2023 da prova, através da equipa 11th Hour Racing Team, e integra o Programa Científico da competição, que utiliza o alcance global do desporto para impulsionar a investigação oceânica, expandir a observação dos mares e acelerar ações em prol da saúde dos oceanos.

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