A equipa francesa inicia uma nova fase de preparação para a 38.ª America’s Cup após o lançamento à água, em França, do seu renovado AC75.
A La Roche-Posay Racing Team já regressou à água com o seu AC75, em Lorient, tornando-se a terceira equipa da 38.ª America’s Cup a lançar a sua embarcação à água e a primeira a fazê-lo em território francês. O monocasco, que exibe pela primeira vez as cores azul e branco do seu patrocinador principal, La Roche-Posay, realizou a sua primeira navegação desde a última edição da America’s Cup, disputada em Barcelona.
Este lançamento à água representa um momento histórico para o projeto francês, uma vez que é a primeira vez que o mesmo Challenger francês disputa duas campanhas consecutivas da America’s Cup, mantendo um nível de atividade equiparável ao das principais equipas internacionais.
A nova imagem do AC75, apresentada três meses após a entrada da La Roche-Posay no projeto, simboliza uma parceria assente na ciência, na inovação e na procura do máximo desempenho. Tendo em vista a 38.ª America’s Cup, o projeto proporcionará ainda à marca um verdadeiro laboratório ao ar livre para testar os seus protocolos de proteção solar e de reparação da pele face aos raios UV, ao sal, ao vento e às condições extremas próprias da alta competição.
Com os seus 75 pés (quase 23 metros) de comprimento, o AC75 é um dos veleiros de competição mais rápidos e sofisticados alguma vez construídos. Graças aos seus foils (hidroasas), é capaz de elevar completamente o casco acima da superfície da água e ultrapassar os 50 nós de velocidade. Por detrás da imagem espetacular de um monocasco “voador” esconde-se, porém, um verdadeiro laboratório tecnológico, onde a aerodinâmica, a hidrodinâmica, a eletrónica, a hidráulica e a ciência dos materiais funcionam como um único sistema.
Para a La Roche-Posay Racing Team, este lançamento à água assinala o fim de uma longa fase de desenvolvimento em terra e o início de uma nova etapa: a validação, em condições reais de navegação, de todo o trabalho desenvolvido.
“Um lançamento à água é sempre um momento muito especial. Durante meses trabalhámos sobre planos, simulações, componentes e sistemas. No dia em que o barco regressa à água, tudo tem de funcionar como um conjunto. É o fim de uma primeira fase, mas também o verdadeiro início do processo de validação“, afirma Antoine Carraz, diretor técnico da La Roche-Posay Racing Team.
Um barco conhecido, mas profundamente transformado
O regulamento da 38.ª America’s Cup obriga as equipas que participaram na edição anterior a partir de um casco já existente. O desafio, por isso, não consistiu em construir um novo AC75, mas sim em adaptar a embarcação utilizada em 2024 a um enquadramento técnico totalmente renovado.
Embora o casco principal se mantenha, grande parte dos elementos que permitem navegar, voar e controlar este monocasco voador teve de ser redesenhada. O convés, os cockpits, a distribuição dos pesos, os sistemas de controlo, os circuitos elétricos e hidráulicos, bem como a ergonomia da tripulação, foram completamente revistos para cumprir o novo regulamento.
“Exteriormente, o público reconhecerá o barco de 2024. Mas, do ponto de vista técnico, trata-se de muito mais do que uma simples atualização. Tivemos de repensar toda a sua arquitetura interior e a forma como a tripulação interage com a embarcação. O desafio consistiu em transformar profundamente o barco, mantendo a plataforma original“, explica Antoine Carraz.
Esta mudança de abordagem reflete-se igualmente no desenvolvimento do projeto. Se, na edição anterior, uma parte significativa do desempenho dependia da conceção de uma nova embarcação, para a 38.ª America’s Cup o trabalho centra-se muito mais na integração dos sistemas, na fiabilidade, na eficiência energética, no controlo do voo e, numa fase posterior, no desenvolvimento dos apêndices hidrodinâmicos.
De oito para cinco tripulantes: uma nova organização a bordo
A alteração mais visível diz respeito à tripulação. Em Barcelona, o AC75 navegava com oito velejadores a bordo. Em Nápoles serão apenas cinco, sendo obrigatória a presença de, pelo menos, uma mulher na equipa.
Esta redução não se limita à eliminação de três lugares. Obriga a redistribuir funções, a repensar a posição de cada tripulante e a tornar cada tarefa mais acessível, mais rápida e mais intuitiva.
Por esse motivo, tanto o convés como os cockpits foram redesenhados. Cada membro da tripulação deverá ter acesso imediato a toda a informação necessária para governar a embarcação, regular as velas e controlar o voo.
“Passar de oito para cinco tripulantes muda tudo: a ergonomia, as comunicações, a distribuição de tarefas e os sistemas de controlo. Com menos pessoas a bordo, cada ação tem de ser mais simples, mais direta e perfeitamente coordenada. Trabalhámos para que o barco continue a ser extremamente competitivo sem se tornar mais complexo de operar para a tripulação“, afirma Antoine Carraz.
Além disso, o AC75 passa a dispor de um sexto cockpit destinado a um convidado, que poderá embarcar tanto durante os treinos como nas regatas, sem, no entanto, intervir na navegação. Trata-se de uma novidade inédita nesta modalidade, permitindo a um convidado viver a experiência da competição em tempo real, no coração da equipa.
Das pernas às baterias
Na 37.ª America’s Cup, quatro tripulantes geravam energia a bordo pedalando. Estes cyclors produziam, entre outras funções, a energia hidráulica necessária para o ajuste das velas.
Na próxima edição, os cyclors deixam de existir. A energia passará a ser fornecida principalmente por baterias, o que obrigou a um redesenho completo da arquitetura elétrica e hidráulica do AC75.
“O desaparecimento dos cyclors representa uma mudança muito significativa. Até agora, uma parte do desempenho dependia diretamente da capacidade dos tripulantes para gerar potência. A partir de agora, teremos de gerir a energia disponível a bordo: armazená-la, distribuí-la e utilizá-la no momento exato, com a máxima eficiência“, explica Antoine Carraz.
Tal como acontece num veículo elétrico de competição, cada watt conta. Os engenheiros trabalham para otimizar o consumo das baterias, o seu arrefecimento e a fiabilidade de todo o sistema.
Como acrescenta Carraz, “não se trata apenas de dispor de muita potência, mas de evitar qualquer desperdício. Alguns segundos de funcionamento, uma manobra ou um ajuste repetido dezenas de vezes podem ter um impacto muito significativo no balanço energético de uma regata.”
Um computador voador… sempre sob o controlo dos velejadores
O AC75 processa milhares de dados em tempo real: velocidade, altura acima da água, cargas nos apêndices, posição das velas, pressão hidráulica e consumo elétrico.
Toda esta informação permite à tripulação compreender o comportamento da embarcação e atuar com uma precisão extrema. No entanto, o regulamento proíbe que estes dados sejam utilizados para criar um piloto automático: as decisões devem continuar a ser exclusivamente humanas.
Por esse motivo, uma parte significativa do trabalho da equipa técnica centra-se no aperfeiçoamento da interface entre a embarcação e a tripulação, incluindo ecrãs, comandos, rodas do leme, sistemas de controlo e sequências de manobra.
“O objetivo não é substituir o velejador por um computador, mas sim fornecer-lhe a informação certa no momento certo e garantir que cada comando é executado de forma imediata. A estas velocidades, um comando difícil de localizar ou uma informação mal apresentada pode traduzir-se numa perda muito significativa de distância“, afirma o diretor técnico da equipa.
O desafio consiste, assim, em alcançar um aparente paradoxo: tornar a embarcação tecnicamente cada vez mais sofisticada, sem deixar de ser simples de operar a velocidades superiores a 80 ou 90 km/h, em condições de ruído, vibrações e sob uma enorme pressão competitiva.
O desempenho está nos pequenos detalhes
Mantendo-se o casco praticamente inalterado, a batalha tecnológica centra-se agora em elementos menos visíveis para o público: os foils, o leme, as velas, os sistemas de controlo e a aerodinâmica do convés e dos cockpits.
Os foils desempenharão um papel particularmente determinante. São eles que permitem elevar o AC75 acima da água e a sua geometria, rigidez e capacidade para manter uma altura de voo estável influenciam diretamente a velocidade da embarcação.
A configuração utilizada durante esta primeira navegação não será, necessariamente, a que competirá em Nápoles. O desenvolvimento prosseguirá ao longo de toda a campanha.
“O primeiro lançamento à água não representa uma configuração definitiva. É simplesmente o nosso ponto de partida. Agora vamos medir, comparar, analisar e desenvolver progressivamente a embarcação. Na America’s Cup, o desempenho raramente resulta de uma única grande inovação; nasce de centenas de pequenos detalhes que, em conjunto, acabam por fazer a diferença“, afirma Antoine Carraz.
Da simulação à realidade
Antes do regresso à água, uma parte muito significativa do trabalho foi desenvolvida com recurso a ferramentas digitais, incluindo modelação tridimensional, cálculos estruturais, simulações dos fluxos de ar e de água, análise de sistemas e ensaios em bancada.
Contudo, nenhum modelo é capaz de reproduzir integralmente a complexidade de um AC75 em navegação. As primeiras saídas para a água servirão para confrontar as hipóteses dos engenheiros com o comportamento real da embarcação.
Nesta fase inicial, as prioridades serão a segurança e a fiabilidade. A equipa verificará o funcionamento de todos os sistemas, o consumo energético, as temperaturas, a comunicação entre os diferentes grupos de trabalho e a adaptação da tripulação às suas novas funções.
“Nas primeiras saídas não procuramos imediatamente atingir a velocidade máxima. Avançamos passo a passo. Primeiro temos de confirmar que todos os sistemas funcionam como previsto e, só depois, aumentar gradualmente o nível de exigência. O desempenho só surge quando a embarcação é fiável e a tripulação a conhece na perfeição“, explica Antoine Carraz.
Cada sessão de navegação gerará uma enorme quantidade de dados, que serão analisados pelos engenheiros em terra e comparados com as sensações transmitidas pelos velejadores. Este ciclo contínuo de navegação, análise e desenvolvimento constituirá o núcleo do programa técnico da equipa nos próximos meses.
Um símbolo da engenharia francesa com impacto económico e científico
Concebido em Vannes, em 2023, e atualmente preparado e gerido a partir de Lorient, o AC75 reúne competências provenientes não só da vela de alta competição, mas também da indústria, da engenharia, da eletrónica, das tecnologias digitais e da investigação.
O seu regresso à água assinala uma nova etapa da campanha francesa rumo à 38.ª America’s Cup e reflete a ambição da La Roche-Posay Racing Team de construir, em torno desta embarcação, uma equipa capaz de dominar uma das mais complexas máquinas desportivas do mundo. Trata-se de um projeto que, além disso, gera emprego altamente qualificado e um importante impacto económico e científico, tanto na região como a nível nacional, muito para além do universo da vela.
Antoine Carraz conclui “O AC75 da La Roche-Posay Racing Team é o resultado de um verdadeiro trabalho coletivo. Por detrás dos cinco velejadores que veremos a bordo estão engenheiros, técnicos, construtores, especialistas em eletrónica, peritos em hidráulica e numerosos parceiros. O lançamento à água materializa todo esse trabalho. A partir de hoje, o nosso objetivo é transformar esse conhecimento técnico em desempenho sobre a água.”
Como terceira equipa inscrita na 38.ª America’s Cup a voltar a colocar o seu AC75 na água, a La Roche-Posay Racing Team inicia uma nova fase da sua campanha: o regresso à navegação de uma embarcação reconhecível pelo seu aspeto exterior, mas profundamente renovada no seu interior e totalmente focada no objetivo de Nápoles 2027.
Stephan Kandler, CEO da K-Challenge, afirma “Após a nossa promissora estreia na primeira regata oficial, disputada em maio passado, em Cagliari, ver o nosso AC75 navegar pela primeira vez em França representa um momento muito especial para toda a equipa. Este lançamento à água culmina meses de trabalho desenvolvidos em Lorient pelos nossos velejadores, engenheiros, técnicos e parceiros. Sermos a terceira equipa a voltar a colocar o seu AC75 na água demonstra o impulso que alcançámos e todo o caminho percorrido desde Barcelona, sem nunca interrompermos o nosso trabalho. Com a sua nova imagem, a embarcação representa plenamente o projeto que estamos a construir em conjunto com a La Roche-Posay: uma campanha francesa de longo prazo, assente na ciência, na inovação e na procura constante do desempenho. Estas primeiras navegações constituem um marco importante e assinalam o início de uma nova fase de trabalho na água, com um objetivo muito claro: continuar a melhorar todos os dias tendo em vista Nápoles 2027.”
Programa da La Roche-Posay Racing Team para 2026
1 a 14 de agosto: treinos em Lorient.
Meados de agosto a final de setembro: transferência para Nápoles.
24 a 27 de setembro: Preliminary Regatta de Nápoles com o AC40.
Outubro: início dos treinos do AC75 em Nápoles, cidade anfitriã da 38.ª America’s Cup.
Fotografias: ©NicolasTouze – La Roche-Posay Racing Team